LITERATURA

Como Elaborar uma Crítica Literária

Uma crítica literária, algumas vezes chamada simplesmente de análise ou análise literária crítica, é uma avaliação de uma obra da literatura. O escopo da crítica pode ser uma análise a respeito de um único aspecto da obra ou toda ela, e envolve desmembrar as partes e avaliar como elas se encaixam para alcançar os propósitos do texto. Críticas literárias são normalmente feitas por estudantes, acadêmicos ou críticos da área, mas qualquer um pode aprender a analisar literatura seguindo os passos abaixo.

  1. Leia a obra literária que pretende criticar. Preste atenção ao significado do título, que aludirá ao objetivo central do livro. Pesquise a respeito de quaisquer palavras ou passagens que você não tiver compreendido bem.

  2. Examine os componentes da obra.

  • Enredo. Essa é a linha narrativa da peça literária. Um enredo pode ser algo abstrato, uma jornada psicológica ou uma simples série de eventos.

  • Configurações. Avalie como as escolhas de configuração afetam o tema e o clima do trabalho.

  • Personagens. Diferencie entre personagens principais e secundários e identifique seus papéis e propósitos na obra. Faça anotações especiais a respeito do caminho do personagem principal ao longo da peça (por exemplo: as mudanças, desafios encarados, etc.).

  • O desenvolvimento do conflito, do clímax e da resolução. Esses elementos são todos partes do enredo, mas devem ser examinados separadamente, a partir de sua posição no desenvolvimento da trama e como ela é um fator que contribui para o sucesso do autor em transmitir o significado de sua obra.

  • Temas. Decifre o que o escritor está tentando comunicar com seu livro e o que a obra diz sobre a natureza humana.

  • Ponto de vista. Considere o narrador e como suas escolhas contribuem para o propósito da obra.


  1. Elabore uma interpretação para a sua crítica literária, levando em consideração os componentes da obra. Decida o que você pensa a respeito do que o autor tentou passar e se você acha que ele foi bem-sucedido em transmitir isso.

  2. Resuma sua interpretação com uma tese concisa; o propósito da crítica literária é dar suporte à sua tese.

  3. Prove sua interpretação. Use exemplos específicos da obra e documentos de apoio de fontes externas para fundamentar sua tese.

  • Encontre padrões na obra que sustentem a interpretação na sua crítica. Cite exemplos de repetição e metáforas.

  • Elucide o simbolismo da obra literária e explique como ele fundamenta sua interpretação sobre o significado.

  • Inclua citações e passagens do texto em sua crítica para evidenciar sua posição.

  • Use argumentos de apoio retirados de outras críticas literárias.


Tradição / Inovação Pécora tem razão quando diz que a literatura "não tem como se fingir de recém-nascida, livre para não ter memória e amar integralmente a si própria como invenção de grau zero". A questão aqui pode ser explicada pela falta/excesso de repertório cultural do escritor quando produz algo ou pela falta de manejo do crítico quando ignora o diálogo daquela obra com o seu tempo e com a tradição que a precede. O apagamento do passado e o esquecimento da história são os males do nosso tempo moderno/pós-moderno que contaminam todas as áreas do conhecimento humano. Não são um privilégio da literatura, certamente. Pior para ela cuja origem está na antiguidade clássica - ou antes mesmo, se pensarmos nas narrativas orais. Acontece que desde o começo do século XX "fazer o novo" é a palavra de ordem. Todo escritor pensa em algum dia superar o que ficou para trás na literatura. Mas o peso da tradição e as inovações trazidas pelo século XX (que já se tornaram tradição faz tempo) não deixaram muito espaço para novas invenções. A inovação, no sentido de superação, vive uma espécie de colapso e percebemos que as coisas na história não seguem sempre em linha reta, progressivamente rumo ao futuro glorioso. Não há saída para romper com a representação subjetiva ou objetiva da realidade. Para que isso aconteça precisamos de uma transformação na nossa humanidade, nas nossas percepções do mundo. Independente de inovações linguísticas e modificações nas categorias narrativas, contar histórias é algo intrínseco ao ser humano: não acaba e não cansa. Reforço essa ideia com uma citação do Tao Lin, um escritor americano. Elas estão num ensaio para o The New York Observer chamado Does the Novel Have a Future?. Partindo de perguntas como "que tipos de romances existem hoje?" ou "qual o futuro do romance?", ele constrói argumentos para demonstrar como esse tipo de discussão no desvia daquilo que é mais importante: escrever. Vou colocar abaixo um trecho que traduzi livremente, meio ao pé da letra: "Um certo discurso literário, sobre o que os outros devem ou não fazer com sua arte, provavelmente vai sempre existir como uma distração do ato de escrever romances.

(...)Romances - e memórias - são talvez os relatos mais abrangentes que os seres humanos podem transmitir, de suas experiências particulares, para outros seres humanos. Nestes termos, há apenas um tipo de romance: a tentativa humana de transferir ou transmitir alguma parte ou a versão do seu mundo de númeno para outro do mundo do númeno. (...)Portanto, eu atualmente me sinto mais interessado na leitura/criação de romances que não são melhorias ou inovações de outros romances. Eu quero ver cada romance potencial como definitivamente e inevitavelmente único, aperfeiçoável apenas em relação a si mesmo e só a partir da perspectiva singular do seu criador. Eu quero aprender sobre a experiência única de um outro ser humano a partir de relatos que ele mesmo fizer enquanto animadamente ciente de que só ele, independentemente do que os outros estão pensando ou fazendo, tenha acesso sobre o que ele esta relatando".

Pode ser que em algum lugar, nesse exato momento, exista alguém "fazendo o novo". Porém, contar história interessantes é tão importante quanto. Isso retira das nossas costas a responsabilidade de fazer obrigatoriamente algo novo. A imposição que parece que não deixa com que a gente avance. Cabe ao escritor a tentativa de dialogar com o que existiu, recombinando e recomeçando tudo outra vez.

Da crítica A briga dos escritores com a crítica, dos leitores com a crítica e dos críticos com a crítica, está enraizada no esvaziamento do seu discurso que oscila ora entre o jargão acadêmico e ora entre repetição de esquemas interpretativos e releases jornalísticos. Alguns torcem pelo fim da crítica e alguns já deram ela como morta. Mas quando uma coisa desaparece é que ela ganha mais importância. Eis uma ideia que aparece nos diários do escritor Ricardo Piglia, que encontrei no blog Todoprosa, do Sérgio Rodrigues: “A crítica literária é a mais afetada pela situação atual da literatura. Desapareceu do mapa. Em seus melhores momentos – com Iuri Tinianov, Franco Fortini ou Edmund Wilson – foi uma referência na discussão pública sobre a construção do sentido em uma comunidade. Não resta nada dessa tradição. Os melhores – e mais influentes – leitores atuais são historiadores, como Carlo Ginzburg, Robert Darnton, François Hartog ou Roger Chartier. A leitura dos textos passou a ser assunto do passado ou do estudo do passado.”

Antes de sumir, a crítica precisa se reinventar - tanto quanto os escritores. O próprio Pécora falou sobre isso numa entrevista para a revista "Floema", da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (encontrei via Prosa e Verso e recomendo a leitura). Lá ele diz que a crítica precisa ser exercida em várias frentes, precisa trabalhar para fazer surgir "um conjunto de metáforas e formas novas de lidar com eles" e o mais interessante: "(...) também acho que a crítica de cultura deve ocupar prioritariamente o campo da língua portuguesa e não o do jargão de área acadêmica. Para que o espaço de linguagem crítica no jornal seja mais do que uma glosa descorada do que já existe (descoradamente) no espaço acadêmico, para que esse espaço possa funcionar não só como orientação do consumo e do gosto, mas também como lugar de reflexão atenta à especificidade dos novos objetos do presente, são necessários estudo e erudição".

Não deixa de ser uma saída interessante, mas que exige tempo e esforço. Também acho que as inúmeras discussões a respeito de mercado editorial, dos livros e leitores eletrônicos, do fim da literatura, do fim do romance também nos desviam do que está acontecendo na literatura agora. Seria interessante ouvir o que um escritor tem a dizer sobre o seu processo de trabalho, suas intenções, sua pesquisa e todo o resto. Outra coisa que falta à crítica é acabar com essa indisposição para enfrentar e vasculhar o que está sendo produzido. O Michel Laub, novamente, tem um texto bem interessante sobre isso para o blog da Companhia das Letras - Os clichês do escritor e os clichês da crítica:

"O uso do clichê e do jargão é apenas um exemplo da subjetividade intrínseca a qualquer julgamento literário.

(...) ok, mas o resultado de tais premissas e escolhas é bom ou ruim, funciona ou não dentro do que se propõe — nas regras que o autor determina, e não o crítico —, e por quê? (...)Existem os best-sellers de público, com fórmula reconhecível por qualquer leitor com experiência, e os best-sellers de crítica, que se escondem — às vezes por décadas e séculos — entre a chamada “literatura de qualidade”. Por razões que valeriam um texto à parte, no entanto, é sempre possível encontrar em algum ponto deles a prova de que o escritor capitulou — em termos ideológicos, morais e técnicos, por falta de talento, esforço ou coragem — ao o pior dos clichês, que é o do imaginário comum de uma época. Ou seja, aquilo que os outros, incluindo a crítica, esperam que digamos. Quando tudo o que deveríamos perseguir é aquilo que, usando meios que podem parecer os menos literários possíveis, queremos e precisamos dizer."

Alguém, não me lembro quem, num desses congressos culturais, disse que a internet (blogs e redes sociais) é livre para criar críticas pois tem espaço (coisa que está sumindo dos jornais e revistas) e não está ligadas a nenhuma instituição. No entanto a internet sofre de um mal inerente a ela mesma: falar indefinidamente sobre um determinado assunto sem acrescentar nada de relevante - a tal inflação simbólica das narrativas. Como muitos debates críticos estão migrando para a internet, seria natural que essas questões não sejam deixadas de lado. Só que esse ainda é um terreno meio movediço. Irrelevância das narrativas A preferência da leitura crítica à produção de ficção (de literatura) me faz lembrar a briga de Lee Spiegel no The New Yorker Observer. Entre tantas coisas, o crítico cultural americano também disse que prefere ler não ficção a ficção, e diz ainda que a não ficção está ocupando o lugar da ficção - um gênero irrelevante, peça de museu para os dias de hoje. Será mesmo? Não quero arriscar dizendo autores representativos de alguma coisa. Mas no final do ano passado, o Caderno 2, do Estadão, fez uma reportagem bem interessante sobre o romance dessa primeira década do século XXI. E para quem quer entender mais sobre o que aconteceu e está acontecendo na literatura brasileira, recomendo um texto do Sérgio Rodrigues, do Todoprosa - Notícia da atual literatura brasileira: instinto de internacionalidade. Ele resume o embate dos nossos escritores em encontrar uma saída para impasse da irrelevância da narrativa nacional.

Fonte:

http://blogcasmurros.blogspot.com.br

Dez dicas para o crítico literário iniciante

por Michel Laub

(Publicado na revista Entre Livros, numa versão um pouco diferente, em 2007):

1. Um bom começo pode ser a leitura de O imperador do vinho, de Elin McCoy, biografia de Robert Parker, a figura mais controvertida do mundo da enologia. Uma nota alta na Wine Advocate, sua newsletter, é capaz de enriquecer um fabricante. Uma nota baixa pode ser a falência. Ao longo dos anos notaram que ele preferia vinhos frutados, e muitas propriedades passaram a chamar especialistas para se adequar a esse gosto, mudando a composição do solo e a forma do plantio e da colheita.

2. Parker talvez seja o exemplo máximo de crítico bem sucedido hoje – rico de fato, influente de fato. Quase todos os outros profissionais da categoria, trabalhem eles com música, cinema, televisão, videogames ou carnaval, estão mais próximos da figura descrita por George Orwell em Confissões de um resenhista: “Trinta e cinco anos, mas aparenta cinquenta (…) [Trabalha num] conjugado frio, mas abafado (…). Dos milhares de livros que aparecem todo ano, é quase certo que existam cinquenta ou cem sobre os quais teria prazer em escrever. Se for de primeira categoria na profissão, pode conseguir dez ou vinte. É mais provável que consiga dois ou três”.

3. Ou seja, prepare-se para o tédio e a pobreza. Você lerá só por obrigação. Nunca mais irá atrás de um livro indicado por um amigo. Nunca mais fechará um livro com a sensação de que, para o bem ou para o mal, e isso é quase regra para leitores mais experientes, não há o que dizer sobre ele. Sempre há: caso contrário, as contas não fecham.

4. Não se preocupe, no entanto: existem truques para encher essas páginas. Se você quer malhar um livro e não sabe como, recorra a adjetivos abstratos e por isso mesmo úteis. A timidez, por exemplo. Argumente que o autor não explora suficientemente os conflitos da obra. Outras alternativas: excesso de objetividade, de subjetivismo, de frieza, de dramaticidade. A categoria das “idéias fora de lugar”, deslocada de seu contexto original, também ajuda: um romance com personagens redondos e arco narrativo completo pode ser atacado por seguir um modelo burguês de contar histórias, incompatível com o nosso século; um romance sem essas características pode ser descartado, justamente, pela incapacidade de prender o leitor.

5. Para o caso contrário, isto é, se você quer elogiar um livro que acha ruim, há dois recursos clássicos: a) em relação à prosa desagradável ou à trama incompreensível, diga que ambas simbolizam o incômodo e a irredutibilidade de sentidos do mundo contemporâneo; b) em relação à estrutura caótica e fragmentária, quando não se entende o que é início, o que é fim e do que é mesmo que estamos falando, afirme que ela reproduz, como metáfora de forma – que, sabemos, é necessariamente conteúdo –, o caos fragmentário da sociedade pós-industrial.

6. Mas se, por um desses acasos raros, você está decidido a dizer o que pensa, há também dois caminhos a seguir. O primeiro é confiar nos seus juízos pessoais, não temendo a exposição de preconceitos em público. Assim você terá mais chances de ser considerado ranheta, rancoroso e/ou pervertido.

7. O segundo caminho é se alçar a porta-voz de um “sistema”, para o qual são válidas mesmo obras que não são do seu agrado – por questões sociológicas, morais ou de “voz” (raça, credo, gênero). Mesmo que os motivos sejam nobres – sua humildade ongueira em não se considerar juiz definitivo do que é certo ou errado em estética e cultura –, há boas probabilidades de você ser visto como um crítico sem alma, sem coragem, sem caráter.

8. Independentemente da escolha, a reação geral é inevitável. Dirão que seu desejo secreto era ser ficcionista ou poeta. Dirão que você é leviano demais, complacente demais, que tem algum interesse obscuro – ascender na carreira, agradar aos pares da academia, fazer sexo (sem amor) – ou está a soldo de alguma entidade conspiratória – grupos literários rivais, maçons, seitas, partidos políticos de direita (se você receber salário da mídia golpista) ou esquerda (se escrever numa publicação financiada pela Petrobras).

9. Em resumo: você será odiado. Pelos autores que você desanca. Pelos autores que você ignora. Pelos autores que você elogia pelos motivos sempre errados. Pelos editores, tradutores, assessores de imprensa e outros críticos. Pela maior parte do público, mesmo os que o lêem com frequência (“Só para me irritar”).

10. Mas se, apesar de tudo, você insiste em abraçar a profissão, é bom se perguntar o motivo. Quando criança, usando o olfato hoje segurado em cerca de US$ 1 milhão, Robert Parker era capaz de listar ingredientes dos pratos que estavam sendo cozinhados na vizinhança, habilidade que o tornaria campeão absoluto dos “testes cegos” de uvas e safras. Isso se chama vocação. É o seu caso? Você se sente preparado para exercê-la de modo tão desanimador? Se a resposta for sim, ótima notícia. Não só para você, que ao menos achou um jeito honesto de ganhar a vida, mas para o meio literário. Porque não há nada de que ele necessite mais, hoje e em qualquer tempo: alguém que o ajude a enxergar, avaliar, selecionar. Diferentemente do que se diz, um crítico autêntico não é apenas o advogado do público. Ele é, em última instância, o maior defensor da própria literatura.

Fonte:

https://michellaub.wordpress.com

30 mandamentos para ser leitor, escritor e crítico

Yiu Rojas

Decalógo do leitor Por Alberto Mussa I - Nunca leia por hábito: um livro não é uma escova de dentes. Leia por vício, leia por dependência química. A literatura é a possibilidade de viver vidas múltiplas, em algumas horas. E tem até finalidades práticas: amplia a compreensão do mundo, permite a aquisição de conhecimentos objetivos, aprimora a capacidade de expressão, reduz os batimentos cardíacos, diminui a ansiedade, aumenta a libido. Mas é essencialmente lúdica, é essencialmente inútil, como devem ser as coisas que nos dão prazer. II - Comece a ler desde cedo, se puder. Ou pelo menos comece. E pelos clássicos, pelos consensuais. Serão cinqüenta, serão cem. Não devem faltar As mil e uma noites, Dostoiévski, Thomas Mann, Balzac, Adonias, Conrad, Jorge de Lima, Poe, García Márquez, Cervantes, Alencar, Camões, Dumas, Dante, Shakespeare, Wassermann, Melville, Flaubert, Graciliano, Borges, Tchekhov, Sófocles, Machado, Schnitzler, Carpentier, Calvino, Rosa, Eça, Perec, Roa Bastos, Onetti, Boccaccio, Jorge Amado, Benedetti, Pessoa, Kafka, Bioy Casares, Asturias, Callado,Rulfo, Nelson Rodrigues, Lorca, Homero, Lima Barreto, Cortázar, Goethe, Voltaire, Emily Brontë, Sade, Arregui, Verissimo, Bowles, Faulkner, Maupassant, Tolstói, Proust, Autran Dourado, Hugo, Zweig, Saer, Kadaré, Márai, Henry James, Castro Alves. III - Nunca leia sem dicionário. Se estiver lendo deitado, ou num ônibus, ou na praia, ou em qualquer outra situação imprópria, anote as palavras que você não conhece, para consultar depois. Elas nunca são escritas por acaso. IV - Perca menos tempo diante do computador, da televisão, dos jornais e crie um sistema de leitura, estabeleça metas. Se puder ler um livro por mês, dos 16 aos 75 anos, terá lido 720 livros. Se, no mês das férias, em vez de um, puder ler quatro, chegará nos 900. Com dois por mês, serão 1.440. À razão de um por semana, alcançará 3.120. Com a média ideal de três por semana, serão 9.360. Serão apenas 9.360. É importante escolher bem o que você vai ler. V - Faça do livro um objeto pessoal, um objeto íntimo. Escreva nele; assinale as frases marcantes, as passagens que o emocionam. Também é importante criticar o autor, apontar falhas e inverossimilhanças. Anote telefones e endereços de pessoas proibidas, faça cálculos nas inúteis páginas finais. O livro é o mais interativo dos objetos. Você pode avançar e recuar, folheando, com mais comodidade e rapidez que mexendo em teclados ou cursores de tela. O livro vai com você ao banheiro e à cama. Vai com você de metrô, de ônibus, e de táxi. Vai com você para outros países. Há apenas duas regras básicas: use lápis; e não empreste.

VI - Não se deixe dominar pelo complexo de vira-lata. Leia muito, leia sempre a literatura brasileira. Ela está entre as grandes. Temos o maior escritor do século XIX, que foi Machado de Assis; e um dos cinco maiores do século XX, que foram Borges, Perec, Kafka, Bioy Casares e Guimarães Rosa. Temos um dos quatro maiores épicos ocidentais, que foram Homero, Dante, Camões e Jorge de Lima. E temos um dos três maiores dramaturgos de todos os tempos, que foram Sófocles, Shakespeare e Nelson Rodrigues. VII - Na natureza, são as espécies muito adaptadas ao próprio hábitat que tendem mais rapidamente à extinção. Prefira a literatura brasileira, mas faça viagens regulares. Das letras européias e da América do Norte vem a maioria dos nossos grandes mestres. A literatura hispano-americana é simplesmente indispensável. Particularmente os argentinos. Mas busque também o diferente: há grandezas literárias na África e na Ásia. Impossível desconhecer Angola, Moçambique e Cabo Verde. Volte também ao passado: à Idade Média, ao mundo árabe, aos clássicos gregos e latinos. E não esqueça o Oriente; não esqueça que literatura nenhuma se compara às da Índia e às da China. E chegue, finalmente, às mitologias dos povos ágrafos, mergulhe na poesia selvagem. São eles que estão na origem disso tudo; é por causa deles que estamos aqui. VIII - Tente evitar a repetição dos mesmos gêneros, dos mesmos temas, dos mesmos estilos, dos mesmos autores. A grande literatura está espalhada por romances, contos, crônicas, poemas e peças de teatro. Nenhum gênero é, em tese, superior a outro. Não se preocupe, aliás, com o conceito de gênero: história, filosofia, etnologia, memórias, viagens, reportagem, divulgação científica, auto-ajuda – tudo isso pode ser literatura. Um bom livro tem de ser inteligente, bem escrito e capaz de provocar alguma espécie de emoção. IX - A vida tem outras coisas muito boas. Por isso, não tenha pena de abandonar pelo meio os livros desinteressantes. O leitor experiente desenvolve a capacidade de perceber logo, em no máximo 30 páginas, se um livro será bom ou mau. Só não diga que um livro é ruim antes de ler pelo menos algumas linhas: nada pode ser tão estúpido quanto o preconceito. X - Forme seu próprio cânone. Se não gostar de um clássico, não se sinta menos inteligente. Não se intimide quando um especialista diz que determinado autor é um gênio, e que o livro do gênio é historicamente fundamental. O fato de uma obra ser ou não importante é problema que tange a críticos; talvez a escritores. Não leve nenhum deles a sério; não leve a literatura a sério; não leve a vida a sério. E faça o seu próprio decálogo: neste momento, você será um leitor.

Yiu Rojas

Decálogo do autor Por Miguel Sanches Neto Depois de leitor, você pode se tornar, então, escritor– embora, pasme, muitos hoje pulem a leitura, por julgá-la dispensável, e já desejem publicar I - Não fique mandando seus originais para todo mundo.Acontece que você escreve para ser lido extramuros, e deseja testar sua obra num terreno mais neutro. E não quer ficar a vida inteira escrevendo apenas para uma pessoa. O que fazer então para não virar um chato? No passado, eu aconselharia mandar os textos para jornais e revistas literárias, foi o que eu fiz quando era um iniciante bem iniciante. Mas os jovens agora têm uma arma mais democrática. Publicar na internet. Há muitos espaços coletivos, uma liberdade de inclusão de textos novos e você ainda pode criar seu próprio site ou blog, mas cuidado para não incomodar as pessoas, enviando mensagens e avisos para que leiam você. II - Publique seus textos em sites e blogs e deixe que sigam o rumo deles. Depois de um tempo publicando eletronicamente, você vai encontrar alguns leitores. Terá de ler os textos deles, e dar opiniões e fazer sugestões, mas também receberá muitas dicas. III - Leia os contemporâneos, até para saber onde é o seu lugar. Existe um batalhão de internautas ávidos por leitura e em alguns casos você atingirá o alvo e terá acontecido a magia de um texto encontrar a pessoa que o justifica. Mas todo texto escrito na internet sonha um dia virar livro. Sites e blogs são etapas, exercícios de aquecimento. Só o livro impresso dá status autoral. O que fazer quando eu tiver mais de dois gigas de textos literários? Está na hora de publicar um livro maior do que Em busca do tempo perdido? Bem, é nesse momento que você pode continuar sendo um escritor iniciante comum ou subir à categoria de iniciante com experiência. Você terá que reduzir essas centenas e centenas de páginas a um formato